Quando crianças,
temos medo do escuro, pois ele nos reserva os maiores monstros que podem se
infiltrar no imaginário humano. Acaso serão os nossos próprios monstros? Quando
crianças, não temos consciência disso, mas hoje sabemos perfeitamente do que se
trata. Os monstros são os medos, os monstros, os desastres, a feiura e toda a
saliva ruim. Ah, quem dera poder mudar isso, deixar tudo em luz, tudo em fugaz,
tudo em paz.
Mas não. Isso
não! O acaso, a escuridão... Nela sei quem sou, conheço a verdade, sou capaz de
me testar e saber se eu mesma consigo me suportar. Maldito d’aquele que não
consegue se suportar. Dentro da imensa negritude, posso me desdobrar: não tem
ninguém me vendo mesmo! Posso sentir o prazer e a dor benigna de tocar meus
erros passados, sem sentir pena de mim mesma pelos sofrimentos causados. Posso
ir anos-luz, sem que ninguém me perceba, sem que ninguém dê conta de mim. A
capa da invisibilidade não é mais fútil no escuro.
Se perder quem
sabe é o melhor caminho que há dentro da escuridão. Seus pensamentos são todo
um mundo. O ser humano é uma máquina perfeita! Máquina de costura, de desenho,
de moer... Remoer – tudo o que ficou pela metade; costurar – os rasgos que o
coração possui; desenhar – toda e qualquer forma que se tenha vontade; e pintar
- com cores, todas as formas conseguidas, pois tudo tem sua cor, até mesmo a
negritude. O negro é o introspecto. As páginas estão em branco, e todos os
tecidos fomos nós quem fizemos. Portanto, somos responsáveis por nem tudo. O
destino sempre nos revela lados ocultos, pessoas maléficas e situações
tenebrosas. É quase uma prova de fogo, mas sem o fogo.
E em meio ao voo surge a descoberta. Em meio aos conflitos, surge a força. Em meio a si, surge
tudo que se possa alcançar. Afinal de contas, o escuro não é tão mau assim.