sábado, 3 de maio de 2014

Ausência que não se ausencia

Um mês depois e sua ausência não se faz ausente.
Lembro-me do dia que você chegou. Eu era pequena, mas essas lembranças ficaram em minha mente. Era noite. Você chegou durante a noite e eu me lembro da discussão que foi para decidir o seu nome. Por fim, minha mãe resolveu por motivos óbvios que você seria Malhado.
Você chegou a minha casa quando eu tinha sete anos. Passou muitas fases da minha vida comigo, “vira-lata”. Vira-lata que nunca virou uma lata em nossa casa.
Você virava as nossas mentes com a preocupação de não deixar o portão aberto para você não sair correndo como um louco pelo meio da rua e de sempre verificar se a grade estava fechada quando chegava alguém em nossa casa.
Arisco para os desconhecidos, dócil para os conhecidos. Em tempos de chuva, você se enrolava no lençol e deitava em sua casinha. Em tempos de calor só queria deitar-se à sombra. Nunca comeu nada que não fosse comestível. A propósito, espero que você tenha perdoado as vezes que eu me esqueci de colocar a sua comida.
Você virou os nossos corações com alegria ao cavar no quintal, ao deitar com as patas para cima quando queria coçar as costas e a correr quando a gente queria te dar banho. No que diz respeito a esse quesito, você se parecia mais com um gato.
Todos os dias eu me lembrarei de você. Lembrarei que eu separava o fim da minha comida para você. Hoje não posso fazer isso. Lembrarei que, junto com meus pais, você me esperava chegar das festas: meus pais no quarto enquanto você estava no jardim. Agora eu tenho medo quando chego de madrugada: quem vai me proteger?
Você foi inteligente o suficiente para me avisar que sua hora estava chegando e para ir enquanto todos morriam a morte de oito horas do cotidiano. Não vi o seu último suspiro e ainda respiro como se você estivesse comigo. Isso só me faz pensar que, por mais que a esperemos, a morte nunca vai ser aceita, embora seja a única certeza da vida. Além disso, ela vai te dar a sensação de que você jamais conseguiu ser o suficiente.
Você esteve ao meu lado durante doze anos. Não importa quantos textos eu consiga extrair de mim. Eles sempre serão acompanhados de água com cloreto de sódio. Eles sempre serão nada comparados a você.
Quando chegou, você me virou em amor. Quando se foi, me virou em saudade.

Um comentário:

  1. Nossa Ingrid, me emocionei de verdade lendo teu o texto. Sei como é feliz a vida de quem tem um amigo assim por perto. Eu tenho duas, uma delas está bem doente ( e por sinal, parece bastante com Malhado), não gosto de pensar na ida de Safira, mas é inevitável e quando penso me emociono bastante, ela tem um latido estridente, mas é muito dócil, meiga mesmo.
    Eu tenho certeza que Malhado te fez muito feliz, assim como Safira me faz :).
    Sinto muito por Malhado :'(.

    Ass: Cíntya Regina

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